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Mais uma vez, o YouTube mostra que há um enorme diferença entre as regras de moderação de conteúdo que a empresa diz pregar para todos os canais, mas que ao mesmo tempo acaba não seguindo risca quando falamos dos principais YouTubers da plataforma.

Ainda que a empresa tenha declarado nos últimos meses que está se esforçando para diminuir o alcance de vídeos que espalham teorias da conspiração como a da “Terra planaâ€, o polêmico YouTuber Logan Paul parece ser imune a essa penalização, já que em apenas dois dias o trailer para o documentário The Flat Earth: To the Edge and Back (A Terra Plana: Até a Borda e de Volta, em tradução livre), lançado por Paul no domingo (10), já atingiu mais de um milhão de visualizações na plataforma.

O filme no estilo documentário mostra Paul visitando uma conferência de terraplanistas e, após diversos depoimentos, o trailer termina com Paul falando que acha que está “saindo do armário†do terraplanismo, dando a entender que ele seria mais uma celebridade da internet a compactuar com o delírio coletivo que se tornou o retorno da crença de que a Terra é plana em pleno século XXI.

Paul também não é a única e nem a primeira celebridade do YouTube a atrair cliques com teorias da conspiração e não receber nenhuma penalização no alcance dos vídeos pelo YouTube. Cerca de um mês atrás, o YouTuber Shane Dawson lançou uma série de mais de três horas de duração sobre diversas teorias da conspiração, que incluía não apenas a “Terra planaâ€, mas também outras, como a que defende que os incêndios florestais que assolam as florestas da Califórnia não são causados pelo calor excessivo e pelo mato seco, mas que na verdade são incêndios criminosos causados por uma arma laser montada num satélite e que serviria para manter a população da califórnia em choque. O vídeo de Dawson já possui mais de 62 milhões de visualizações e, assim como o trailer de Logan Paul, também apareceu como conteúdo recomendado na página inicial do YouTube.

O problema desses conteúdos não é necessariamente o fato de falarem de teorias da conspiração — algo que o YouTube já afirmou que aceita na plataforma e permite até mesmo a veiculação de ads — mas sim o de, em ambos os casos, nenhum desses grandes YouTubers deixar claro que essas teorias não passam de mentiras inventadas; ao contrário, elas são apresentadas como pontos de vista potenciais que devem ser levados a sério, mesmo que não possuam nenhuma base científica ou um único resquício de verdade para que possam ser defendidas. E, de acordo com o próprio YouTube, esse tipo de vídeo — que pode ser considerado como “desinformação†— não seria proibido de existir na plataforma, mas o próprio algoritmo do YouTube se encarregaria de diminuir o alcance destes conteúdos — o que claramente não ocorreu.

E mesmo que Paul e Dawson criassem esses vídeos apenas para tirar sarro dos teóricos da conspiração, esse tipo de humor ainda pode causar grandes malefícios, principalmente no caso dos dois, que são celebridades do YouTube com um grande número de seguidores crianças e adolescentes. De acordo com Matt Schimkowitz, editor do Know Your Meme, desde que os memes sobre Terra plana se tornaram uma sensação no Reddit, mais e mais pessoas começaram a se tornar adeptas da teoria. Isso porque, apesar desses memes ridicularizarem o assunto, eles acabam espalhando o tema e encontrando pessoas que já tinham uma propensão a querer acreditar nisso, mas se mantinham “no armário†por medo de estarem sozinhas e, assim, sofrerem represálias da sociedade pela sua opinião.

Além disso, os vídeos de Paul e Dawson também servem para jogar os usuários em um “buraco negro†de teorias da conspiração, e com apenas alguns cliques navegando pela lista de sugeridos é possível chegar em conteúdos bem mais pesados e em teorias bem menos “inocentes†do que a Terra plana.

Schimkovitz ainda alerta que o grande perigo desses conspiracionistas é que eles promovem uma cultura de negação da ciência, onde uma opinião não embasada sobre um assunto tem o mesmo valor que as conclusões de anos de estudos, pesquisas e testes feitos por cientistas, podendo levar a efeitos muito mais nocivos para o futuro do planeta do que fazer as pessoas brigarem com seus professores de geografia, como a criação de um movimento de negação da existência do aquecimento global.

O YouTube sabe que o fato de seu algoritmo recomendar videos de teorias da conspiração é um dos maiores problemas atuais do site, e já avisou que já está preparando medidas para combater isso: dentro dos próximos meses, o portal de vídeos passará a adicionar “painéis de informação†em todos os vídeos que tiver a “Terra plana†como tema, com links para sites que explicam por que essa teoria não é verdadeira. Mas, mesmo afirmando que está trabalhando em soluções, ainda persiste o fato de que, já há muito tempo, o YouTube está se eximindo de culpar suas personalidades, mesmo que elas façam coisas que vão diretamente contra o que a empresa defende. Enquanto a plataforma não conseguir ter um maior controle sobre os limites da liberdade criativa de suas estrelas, esses problemas não serão solucionados tão cedo.

(Ler na fonte)


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