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O parlamento britânico cumpriu suas ameaças e, nesta quarta-feira (5), liberou os documentos confidenciais do Facebook que haviam sido apreendidos como parte de uma investigação sobre a rede social e seus mecanismos de privacidade. Nos papéis, constituídos principalmente de trocas internas de e-mail, o CEO e fundador Mark Zuckerberg discute formas de monetizar os dados dos usuários e como entregar essas informações a parceiros preferenciais, além de aparecer batendo o martelo sobre possíveis práticas anticompetitivas.

As principais revelações do conjunto de documentos estão relacionadas a um período entre 2014 e 2015, quando ocorreu a primeira grande mudança de políticas de segurança relacionadas a desenvolvedores e o acesso aos dados dos usuários. Foi também nesta época que o aplicativo This Is Your Digital Life passou a funcionar, coletando as informações que, mais tarde, seriam o centro do escândalo da Cambridge Analytica. Nos papéis, entretanto, Zuckerberg minimiza o risco de segurança envolvido em tais práticas.

As trocas de e-mails aparecem suprimidas em alguns trechos, de forma a ocultar informações confidenciais e segredos industriais do Facebook. Ainda assim, o CEO e fundador é lido afirmando não acreditar existirem situações em que um desenvolvedor vazou informações dos usuários a outros de forma a criar problemas para a rede social. Em outra correspondência, ele se mostra cético quanto ao fato de uma liberação desse tipo representar uma ameaça estratégia empresa e seus utilizadores.

Tanto que, na mesma época, Zuckerberg e o alto escalão do Facebook cogitaram até mesmo cobrar dos desenvolvedores pela utilização das informações dos usuários. Seria uma forma de monetizar o que seria uma das grandes moedas de troca da companhia, principalmente em um momento no qual ela havia acabado de abrir suas ações e, sendo assim, precisava de alternativas que garantissem o faturamento no longo prazo. A ideia foi descartada em prol do modelo atual, em que essa utilização é gratuita.

Outro ponto considerado problemático pelos legisladores do Reino Unido é a criação de uma lista de parceiros estratégicos, que teriam acesso a mais dados dos usuários do que a maioria dos criadores de aplicativos. Essa relação incluiria nomes como Netflix, Airbnb, Lyft e outros não revelados nos documentos, todos com a possibilidade de uso ampliado das informações em suas próprias soluções, em uma integração mais próxima.

Tais companhias seriam parte de um grupo seleto e restrito, citado pela primeira vez em e-mails datados de 2014. A liberação para acesso privilegiado aos dados dependia de aprovação do próprio Zuckerberg e os nomes escolhidos estariam isentos até mesmo de eventuais mudanças nas políticas que, eventualmente, restringiria o acesso s informações pessoais dos utilizadores.

Seriam duas listas de parceiros preferenciais, chamadas nos e-mails de “amigos do Mark†e “amigos da Sherylâ€, uma menção diretora operacional Sheryl Sandberg. Elas conteriam, respectivamente, 31 e 66 serviços que ficariam de fora do grande corte no acesso s informações e das novas políticas que, na ocasião, afetaram quase 30 mil desenvolvedores. As relações completas de serviços com quem os executivos tinham amizade, entretanto, não foi divulgada.Em documentos vazados, Zuckerberg participa de discussões sobre acesso pago a dados e minimiza questões de segurança (Imagem: Getty Images)

O CEO do Facebook respondeu a essas questões em um post em seu perfil pessoal, afirmando que, como qualquer outra empresa, a rede social também conta com discussões internas e pessoas sugerindo ideias bem diferentes. Segundo ele, menções a tais iniciativas não necessariamente significam que elas seriam colocadas em prática, algo que é comprovado, por exemplo, pela desistência em cobrar dos desenvolvedores pelo acesso aos dados dos usuários, um modelo que, afirma o fundador, tem funcionado muito bem e não deve mudar no futuro.

Além disso, ele também afirmou que muitas das situações elencadas nos documentos liberados pelo parlamento britânico têm a ver com um esforço, realizado em 2015, para livrar a plataforma de apps “suspeitos†e criar um ambiente mais seguro aos usuários. O objetivo, diz Zuckerberg, sempre foi criar um modelo de negócios lucrativo e sustentável, mas que, ao mesmo tempo, não colocasse seus utilizadores em risco.

Cortando tudo

Em outro momento da longa lista de comunicações reveladas, o próprio Zuckerberg aparece dando aval para algo que pode se tornar fruto de investigações sobre práticas anticompetitivas. Ele autoriza o corte no acesso do Vine, uma extinta rede social de vídeos curtos, API do Facebook logo após o anúncio da compra da plataforma pelo Twitter, época considerado um dos maiores rivais do Facebook no campo das redes sociais.

Na ocasião, a tecnologia era usada para permitir que os usuários encontrassem amigos que também tinham conta no Vine. A comunicação foi travada com Justin Osofsky, diretor de segurança do Facebook, que afirma já ter preparado até mesmo declarações imprensa sobre o iminente corte, que seria feito sem aviso prévio. Zuckerberg é curto e grosso: “Sim, manda verâ€.

A revelação dos documentos foi vista por especialistas como retaliação recusa de Zuckerberg em comparecer diante do parlamento britânico para responder a questões relacionadas privacidade e segurança. O Reino Unido lidera um comitê internacional que investiga casos como o da Cambridge Analytica e a influência da rede social em questões relacionadas manipulação política e quebra do anonimato dos utilizadores.

Os papéis liberados pelos representantes fazem parte de um processo movido por uma companhia chamada Six4Three, que acusa o Facebook de privilegiar parceiros e impedir o funcionamento de seus aplicativos por conta de medidas de segurança que modificaram, de uma hora para outra, as políticas relacionadas ao acesso aos dados. Os e-mails correm em segredo de justiça em uma corte dos Estados Unidos, mas foram apreendidos pela justiça britânica durante uma visita do CEO da companhia reclamante, Ted Kramer, ao país.

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